Resenha de “Vida à Venda”, de Yukio Mishima (MATEUS ASSUMÇão)

Yukio Mishima foi um polêmico autor japonês, dono de um talento literário muito precoce e senso estético diversificado. Um notório monarquista, ele mesmo era descendente da alta sociedade japonesa, tendo sido iniciado muito cedo no teatro aristocrata por meio da avó, que lhe introduzira às manifestações tradicionais de Kabuki e Noh.

Fascinado pela história dos samurais, Mishima dispendeu muito tempo na contemplação da figura masculina como elemento de construção do imaginário heroico, perpassando os ideais de coragem, força e honra como traços fundamentais do culto ao imperador e do patriarcalismo japonês. Repleta de críticas à modernidade nipônica e seu suposto estado de pusilanimidade, sua obra é formada de inúmeros temas que tomaram maior substância conforme a fixação de seu estilo.

Um dos grandes exemplos da maturidade mishimiana é observável ao final de sua vida, em 1968. Inochi Urimasu (命売ります), distribuído no Brasil como Vida à Venda, conta a história de Hanio, copywriter de Tóquio que decide desistir de sua promissora carreira após uma tentativa malograda de suicídio. Em um fluxo de narrativa que combina elementos do thriller, realismo mágico, erotismo e drama existencial, o enredo segue os passos do protagonista como um mercenário disposto a morrer por quem quer que deseje comprar sua vida e usá-la como bem entender.

Mishima traça o perfil de inúmeras personagens típicas do Japão nos anos 60, passando por chefões do submundo, prostitutas, hippies e até políticos, sem deixar de retratar os aspectos da solidão humana (principalmente feminina) e o sentimento de desrealização próprios dessa sociedade. Como numa espécie de imago mundi urbano, não ordenado e teleológico como o que fora construído em tempos antigos, vemos vidas incompletas em um tácito acordo teatral – artifício já utilizado em seu primeiro romance, Kamen no Kokuhaku (仮面の告白) ou Confissões de uma Máscara (1949), no Brasil, em que um jovem com aspirações artísticas busca esconder suas preferências estéticas e vida sexual para não ser percebido como um estrangeiro.

Não obstante, a vida de Hanio também é incompleta, pois ele é condenado a se submeter aos cenários que ela monta, terminando explorado pelos interesses alheios, embora conquiste relações de relativa duração. Sendo assim, seu final acaba por ser a loucura; perseguido por um grupo criminoso secreto, envolvido em uma aventura que lhe garantiu até mesmo o contato com uma vampira e sem volta para casa, sua indigência é ignorada pelo oceano de vidas em uma metrópole apressada.

O protagonista é, portanto, representante do submundo de sua sociedade, sendo o condutor de ações moralmente reprováveis para a civilização moderna, pautada na inocuidade e submissão aos aparatos do estado. Ele encarna a ousadia ausente em seus contemporâneos, alcançando a liberdade que o medo suprimiu neles ao ponto de relegar não só seus impulsos hediondos às quatros paredes, mas toda forma de truculência, elemento basilar do arquétipo clássico de gangster como membro de uma sociedade alternativa. Elogiado por muitos de seus contemporâneos, como o também japonês e nobel Yasunari Kawabata, Mishima sempre chamou atenção por seu simbolismo e representação da entropia nas relações humanas, em reunião tipicamente japonesa da sutileza e violência. De algum modo, sua obra apresenta o destino trágico do aspirante a herói no ecossistema moderno, onde os velhos valores de heroísmo japoneses remanescem em pequenos exemplos de sacrifício silencioso.

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