A FONTE DA FELICIDADE (trechos do posfácio de Leonardo Nahoum para o livro de Hélio do Soveral)

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A importância do legado de Hélio do Soveral, em diversas áreas da vida cultural brasileira, é inegável, incontornável e digna de resgate e estudo. Se, no mundo do romance policial, por exemplo, Rubem Fonseca segue sendo o nome academicamente incensado por natureza, Soveral é de longe o de maior produção. Basta ficar nos mais de mil roteiros produzidos para rádios como Tupy e Nacional e nos seus detetives memoráveis: o Inspetor Marques, o norte-americano Lewis Durban e o brasileiro Walter Marcondes.

O livro “A Fonte da Felicidade” deveria ter sido publicado no início dos anos 1970, mas sua editora original, a Monterrey, optou por não publicá-lo por motivos que só podemos atribuir à atmosfera de cerceamento e censura artística, política e intelectual que imperava no Brasil nos Anos de Chumbo da ditadura militar. Agora finalmente resgatado pela AVEC editora e pelo pesquisador e organizador Leonardo Nahoum, o texto de Hélio do Soveral oferece ao público não só uma deliciosa aventura cheia de reviravoltas fantásticas como também uma amostra de como a literatura popular/de massa, em todos os tempos, pode ser engajada, crítica, reflexiva e combativa.

(texto da contracapa)

Teria algum fundo de verdade o relato balbuciado pelo mateiro moribundo Chico Cipó, resgatado depois de dias à deriva em uma canoa nas profundezas da Amazônia, acerca de uma fantástica tribo de índios brancos armados com escudos, espadas e outras armas de estilo medieval?

Haveria ali uma prova consistente (e uma pista!) de que os antigos vikings não apenas chegaram às Américas antes de Colombo como foram caminhando cada vez mais ao sul, em suas explorações, até se fixarem em alguma parte da selva amazônica, onde sobreviveram até os dias de hoje?

Esse é o mistério que o arqueólogo Helyud Sovralsson, ao deixar o Viking Museum de Nova York em companhia do geólogo Charles Winnegan e do antropólogo Mark Spencer rumo a uma expedição repleta de perigos, reviravoltas e revelações, tenta esclarecer nesta aventura onde nem todas as águas correm em direção à Fonte da Felicidade!

(fim do texto da contracapa)

Anunciado como o número 3 da Coleção Monterrey, o terceiro manuscrito criado por Soveral dentro de sua proposta de histórias-testemunhos, A Fonte da Felicidade seria substituído pela obra Compulsão erótica, de Paul Daniels, e o livro de Soveral nunca mais seria apresentado ao público, ficando esquecido por quase cinquenta anos. Antes de encontrar os originais, elementos de seu entrecho (o cenário amazônico e os “índios brancos”), que reconhecemos em um episódio da série infantojuvenil A Turma do Posto Quatro (Operação Vikings da Amazônia, de 1984), nos fizeram desconfiar de que havia ali, naquele misterioso título anunciado pela Monterrey e descartado, um original desconhecido de Hélio do Soveral, autor, afinal, de três dos quatro itens da coleção, todos sob pseudônimo.[1] O exame do acervo do escritor nas dependências da Empresa Brasil de Comunicação nos fez chegar ao datiloscrito quase completo, cujo aproveitamento parecia, inicialmente, ter sido descartado pela Monterrey pela perigosa (por nada ufanista) sugestão de um Brasil descoberto não por Cabral, mas por exploradores vikings pré-colombianos! A leitura de suas páginas para publicação, porém, revelou-nos uma obra muito mais audaciosa em seu enfrentamento e denúncia do regime militar da época e que nos trazia à mente o episódio citado no livro Almanaque da Rádio Nacional, de Ronaldo Conde Aguiar: em protesto pela demissão, no início da ditadura, em 1964, de seus colegas de Rádio Nacional Rodolfo Mayer e Gerdal dos Santos, intérpretes respectivamente do Inspetor Marques e do detetive Zito, de seu programa Teatro de Mistério, Soveral descontinuou os personagens, criando outros dois − Inspetor Santos e seu auxiliar Minoro − para os atores substitutos Domício Costa e Cauê Filho (AGUIAR, 2007, p. 157).

 Lidas as páginas do datiloscrito encontrado, a autocensura da Monterrey a A Fonte da Felicidade pareceu-nos então evidente, dado o perigoso teor da críticas incluídas na aventura, por Soveral, aos militares e às suas escassas capacidades de administração. Utilizando-se dos nacons, a casta de guerreiros vikings, como metáfora para os militares brasileiros, e da cidade de Valhalah como disfarce utópico[2] para o país como um todo (cuja economia, na narrativa, se vê em ruínas após um golpe militar e uma administração desastrosa), Hélio do Soveral batia forte no regime de Médici e em toda a classe castrista.

A publicação desta obra, em 2019, continua as comemorações pelo centenário do nascimento de Soveral, em 2018, e espera, além de celebrar sua carreira, vida e importância, despertar de um “cochilo” injusto seus potenciais apreciadores, sejam eles leitores (novos ou aqueles que se deleitavam com histórias dos Seis, da Turma do Posto Quatro, de Brigitte Montfort ou de K.O. Durban) ou estudiosos de nossa negligenciada literatura popular, e chamar novamente a atenção de todos nós para os perigos do silenciamento de nossos escritos, ideias e artefatos culturais.

Em artigo de 27 de maio de 2019 na Folha de S. Paulo, o filósofo Luiz Felipe Pondé, ao contestar as supostas causas da piora no humor dos cada vez mais depres-sivos jovens latino-americanos, afirma não concordar que, como diz a pesquisa a que se refere, a perseguição à liberdade de expressão possa estar verdadeiramente entre elas, as causas (ainda que assim declarado pelos entrevistados). Segundo Pondé,

a maioria esmagadora da população não liga para liberdade de expressão. Só quem liga para ela são jornalistas, professores, artistas ou intelectuais em geral. A menos que a repressão sobre a liberdade de expressão torne seu jantar impossível, ela que se dane. (PONDÉ, 2019. Grifo nosso.)

 Pode até ser que, como afirma o filósofo, preocupações com a censura e com o cerceamento da circulação de ideias em toda e qualquer sociedade sejam uma espécie de “sexo dos anjos”, isto é, um debate algo abstrato e elitista que não cabe na maioria das mentes mais ocupadas com a urgência de ver o pão servido sobre a mesa. Para aqueles privilegiados que garantiram já o jantar, porém, e que talvez por isso voltem suas inquietações para outras esferas, é de extrema impor-tância revisitar estes períodos em que o pão do espírito nos foi negado; negado não por escolha, mas por imposição. A publicação em livro dos originais silenciados de A Fonte da Felicidade, de Hélio do Soveral, recoloca sobre nossas mesas esta quase apagada amostra de nossa surpreendentemente engajada literatura popular; este jantar tornado impossível (mas agora não mais) pela ditadura militar dos anos 1970.

Maricá, junho de 2019

Leonardo Nahoum

REFERÊNCIAS

AGUIAR, Ronaldo Conde. Almanaque da Rádio Nacional. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2007.

PONDÉ, Luiz Felipe. “World Peace”. Folha de S. Paulo online. 2019. Disponível em: <https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/luiz-felipe-ponde/jovens-burguesia-luiz-felipe-ponde/>. Acesso em: 28 mai. 2019.


[1] #1 − Juventude amarga (Clarence Mason), #2 − Memórias do Campo 17 (Alexeya Slovenskaia Rubenitch) e #4 − Laboratório do amor (Sigmund Gunther); o livro #3 − Compulsão erótica (Paul Daniels) não é de autoria de Soveral.

[2] Soveral continua, de certa forma, uma tradição que já tinha, entre nós, representantes como A cidade perdida (1948), de Jerônimo Monteiro, A filha do inca (ou A República 3000) (1930), de Menotti del Picchia, e A Rainha do Ignoto (1899), de Emília Freitas, isto é, narrativas de exploração e aventura, com tintas utópicas-distópicas, nas quais se descobre uma civilização que serve como pano de fundo para o debate de questões de cunho social, político e filosófico.

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