Resenha de O jardim de bronze, de Gustavo Malajovich (Vanessa Cianconi)

O tempo está se esgotando…

Quem levou Moira? E por quê? As perguntas que ficam sem respostas são o que faz o leitor a querer continuar a caminhar, com Fábian Danubio, pelas ruas de Buenos Aires. O aspecto arquitetônico da narrativa faz Fábian e o leitor a vagarem “pela cidade, atravessando-a várias vezes, com a sensação que se tem sempre nessas viagens: a de observar um lugar estranho que ao mesmo tempo é conhecido” (p. 333). Como o flanêur do “O homem da multidão” de Edgar Allan Poe, e “O Estranho” de Sigmund Freud, vagar pelos labirintos dessa cidade que apesar de tão íntima se torna tão estranha ao protagonista é se perder na busca do que parece ser impossível de solucionar. Onde está Moira?

O jardim de bronze, romance de Gustavo Malajovich, publicado na Argentina em 2015 e somente traduzido para o português pela TAG com parceria com a Globo Livros em 2019 é um romance policial com ares psicológicos que convida o leitor a fazer uma viagem não só por lugarejos de pouco acesso no entorno de Buenos Aires, mas à uma viagem profunda por dentro de si mesmo.

A vida do arquiteto Fabián Danubio muda em um piscar de olhos quando sua filha de 4 anos desaparece. A menina que some, com sua babá peruana, ao caminho de uma festa, sem deixar rastros abre o caminho para uma investigação que a cada momento ganha um cunho mais pessoal e fantasmagórico para o arquiteto. A vida de Fábian muda drasticamente e com essa mudança muitos pesadelos o perseguem. A perda da filha e o suicídio da mulher o levam para um lado escuro de um desespero difícil de controlar. O tempo passa, o crime esfria, o silêncio se anuncia e é nessa Buenos Aires nostálgica, que se mistura à trama como o mapa de um mistério a ser revelado, e cheia de policiais corruptos, onde Fabián conhece César Doberti, um detetive particular canastrão, mas aparentemente o único realmente disposto a ajudá-lo a encontrar sua filha. Doberti, com seu escritório no “Purgatório” do Palacio Barolo, edifício comercial localizado na Avenida de Mayo inspirado na Divina Comédia, de Dante Alighieri, é quem entrega a sua alma ao levar Fábian para descer ao inferno.

Entrecortado por entradas em um diário anônimo, a primeira entrada de 1987 revela o primeiro crime de muitos somente revelados nas poucas entradas desse misterioso diário. O salto temporal deixa lacunas que aos poucos são preenchidas por pequenos detalhes ao longo dos capítulos que compõem o romance. Estes detalhes parecem não se conectar, mas a ligadura existente como na teia de uma aranha é o que, como foi o fio de Ariadne para Teseu, conduz o final revelador desse romance. A cada deslocamento se conhece mais sobre a fazenda, o jardim de bronze, a arte de esculpir. A composição química do bronze usada pelos antigos artesãos levava arsênico e segundo a lenda os artesãos estavam convencidos de que o arsênico que se usava na fundição era aspirado pelo escultor ia alterando gradualmente até levá-lo à loucura. O arsênico é o que torna o bronze maleável para esculpir. E é essa composição rara que leva Fábian a desvendar o o seu primeiro mistério. A ligação entre a obra de arte e a química é o que faz, o agora detetive Danubio, a sair do labirinto de Buenos Aires.

Gustavo Malajovich nasceu na Argentina em 1963 e como seu personagem principal também é arquiteto de formação. Em 2002 foi convidado para escrever o roteiro do seriado argentino Los Simuladores. Desde então, se dedica exclusivamente às carreiras de roteirista e professor.

O jardim de bronze está disponível, em português, na loja Kindle da Amazon.com.br.

O jardim de bronze ganhou as telas da HBO em 2017 e as duas temporadas da série, com roteiro do próprio Malajovich, está disponível na HBO Brasil. O segundo livro da saga de Fábian Danubio, El hombre de niebla, foi lançado em 2019 e continua sem tradução para o portuguê

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