Ganymédes José Santos de Oliveira e a série “A Inspetora” (Leonardo Nahoum Pache de Faria)

A presente dissertação examina a série “A Inspetora”, do escritor paulista Ganymédes José Santos de Oliveira, que produziu para a editora carioca Ediouro, entre 1974 e 1988, quase 40 livros de bolso de mistério para jovens leitores em torno de uma turma de crianças moradoras de uma fazenda (a “Patota da Coruja de Papelão”). Além de coligir um detalhado perfil editorial e histórico da série junto aos arquivos da editora, que inclui tanto informações relativas a tiragens, formatos e reedições quanto investigações em torno do mistério envolvendo um dos livros do corpus, possivelmente silenciado pela própria editora durante os anos 70 (O Caso do Rei da Casa Preta), buscamos comparar também as narrativas com os parâmetros, regras e lógica próprios do gênero policial, no entendimento de teóricos como W. H. Auden, Todorov, Boileau-Narcejac, Otto Maria Carpeaux, Medeiros e Albuquerque e Sandra Reimão, entre outros. Ao redigirmos uma biografia do autor com base em entrevistas pouco divulgadas e correspondência ativa e passiva inédita descoberta durante a pesquisa no Arquivo Municipal de Casa Branca, procuramos ainda sugerir novas inflexões de leitura para o entendimento da carreira e obra de Ganymédes José, bem como chamar atenção para a relevância de seu trabalho no contexto da literatura infantojuvenil brasileira. Finalmente, tomando como base o primeiro volume da série, O Caso da Mula-sem-cabeça, oferecemos uma análise crítica e leitura do corpus destacando o que ele tem de mais curioso: 1) seu caráter tanto de literatura policial (onde se privilegia a razão e o intelecto como forma de desvendar crimes e mistérios) quanto de literatura de massa (os livros eram assinados de forma diferenciada pela autor e feitos por encomenda para a editora); 2) o curioso deslocamento do palco de suas narrativas de combate ao crime da cidade – que é o berço e quase mesmo a raison d’ être do romance policial – para o campo; 3) um personagem principal (a Inspetora, a menina Eloísa) que alia a razão de um Sherlock Holmes à tradição clássica e um respeito às instituições (igreja, família, figuras de autoridade): diferentemente da prima Malu, vinda da capital São Paulo, Eloísa está sempre atenta às obrigatórias orações, ao respeito a pais e professores, à superioridade da cultura erudita e, finalmente, às vantagens da vida no campo contra todo o tumulto, violência e poluição das grandes cidades. Transparece, ao final de nosso trabalho, um autor que viveu para seus livros e que, na “Inspetora”, parecia resgatar o típico embate oitocentista entre a vida rural, a vida da tradição e dos valores cristãos e clássicos, e a vida urbana, a vida da velocidade e da tecnologia, dos valores modernos e menos humanistas.

Para ler a dissertação na íntegra, clique aqui.

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