Realidades, desejos, crimes e ficções: as cidades de Camilo Castelo Branco e Gervásio Lobato (Andreia Alves Monteiro de Castro)

O objetivo desta tese é analisar, em perspectiva comparada, como Camilo Castelo Branco (1825-1890) e Gervásio Lobato (1850-1895) representaram e discutiram as transformações do conceito de crime e as estratégias de combate à criminalidade na segunda metade do século XIX em Portugal. O grande aumento populacional, a defesa da propriedade privada, as novas relações de trabalho e a concentração de renda acirraram os conflitos entre as elites e as classes populares nos dois maiores centros urbanos: Lisboa e Porto. O medo e a sensação de insegurança fizeram com que a pobreza fosse criminalizada, marginalizada e impelida para as periferias das cidades. A força policial e o aparato jurídico reforçam esse processo estigmatizante, restringindo a mobilidade e os direitos das chamadas “classes perigosas”. Através dos romances Mistérios de Lisboa (1854) e Memórias do Cárcere (1862), Camilo mostra que fidalgos e burgueses endinheirados, longe de precisarem transgredir para garantir a sua subsistência, se valiam das mais variadas formas de violência para manter a sua honra e realizar os seus mais sórdidos anseios. A cadeia era então o destino apenas dos delinquentes mais pobres. Os relatos das vidas de seus companheiros de cadeia e das de outros dois criminosos que pretendeu ajudar revelam que o escritor também defendia que todos os que sofrem por um erro cometido mereciam uma segunda chance. No final do oitocentos, investigadores, médicos e peritos contam com um novo aparato científico para comprovar a ocorrência e descobrir a autoria de um crime. Os periódicos e os romances passaram a retratar e registrar tais procedimentos em detalhes. Gervásio Lobato, atento às inovações da ciência, trazidas para a literatura, abordou, em Os Mysterios do Porto (1890-1891), os sofrimentos e as aspirações dos que não podiam ou não conseguiam se encaixar no senso comum, por isso mesmo mais sujeitos à delinquência. Em Camilo, está em primeiro plano certa compaixão por tudo que é humano. Em Gervásio, desponta a acusação endereçada ao social.

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