Resenha de Hoje estarás comigo no paraíso (2017), de Bruno Vieira Amaral (Dejair Martins)

É possível chafurdar nos escombros do passado em busca de respostas? Através da memória podemos fazer um acerto de contas com o legado que nossos antepassados nos deixaram? Um crime não solucionado deixa marcas, signos que perpassam por décadas, cicatrizes que não preenchem lacunas e espaços e que constantemente incomoda? Bruno Vieira Amaral procurando dar conta dessas questões em Hoje estarás comigo no paraíso revisita sua história familiar rastreando e mapeando os indícios, as pistas, as causas e os porquês do assassinato do seu primo distante João Jorge.

O autor entremeia passagens da sua infância e adolescência, recordando por exemplo o avô e a tia, com as investigações pregressas do homicídio do primo, concebendo que ambas as partes caminhem em paralelo durante a narrativa, imiscuindo a própria história pessoal na do outro, como espelhos que irão refletir e expandir o relato, os fatos e os acontecimentos posteriores. A obra assim, apresenta um caráter fragmentado, híbrido, ilustrada ainda por fotos, pequenos trechos de reportagens, depoimentos, transcrições processuais dentre outros extraídos de jornais da época do crime.

A investigação em si consistia a princípio em pesquisas documentais a fontes de periódicos, bibliotecas, tribunais complementados pontualmente por relatos de familiares e pessoas que testemunharam o ocorrido ou tinham lembranças do fato. Foi em uma dessas reportagens que o autor achou a primeira informação crível sobre o assassinado do primo: João Jorge Rego, vinte e um anos, angolano, degolado em um curral de porcos, supostamente vítima de um grupo de cabo-verdianos. O motivo, uns diziam ser por confronto racial, outros por causa de mulheres e ainda comentavam que ele acompanhado de seu amigo Zeca Diabo foram roubar os animais.

Com o conhecimento desses dados e como um verdadeiro detetive o autor se lança na busca da elucidação do caso de seu primo, tentando juntar pequenas pistas e fragmentos que compunham um imenso mosaico de possibilidades e significações e de extrema dificuldade de acesso aos detalhes e meandros dos acontecimentos que precederam o fato, pois somente dessa maneira seria possível visualizar e compreender de fato tudo o que ocorreu, acarretando no fatídico e brutal homicídio.

 Há a suspeito de que João Jorge integrava um grupo que cometia pequenos furtos e assaltos, intimado em juízo para depoimento do fato sendo em decorrência expedito um mandato de captura e prisão e que cumprido permaneceu sete meses na cadeia. Outro fator importante é uma suposta namorada, Ana Maria, que trabalhava em um prostibulo, gerido por uma tal Maria do Carmo de quem diziam que Ana Maria era sua afilhada, e no qual Zeca Diabo era o segurança. Como elementos de corroboração de sua narrativa o autor baseia-se em provas documentais e testemunhais, como processos e depoimentos.

Mateus Cabral, foi apontado como o cabo-verdiano responsável diretamente pelo assassinato de João Jorge naquela fatídica madrugada de 19 de fevereiro de 1985. Inquirido este relatou que João Jorge o atacara com uma machada escondida sob um casaco e Mateus para se defender desfere golpes de faca no pescoço da vítima. Nas duzentas páginas do processo judicial constam as testemunhas, o laudo da perícia, as armas em questão. Apenas uma das testemunhas dá voz a parte de João Jorge, Mateus pelo contrário, pai de três filhos pequenos tem todos a seu favor, incluindo um abaixo-assinado pedindo sua soltura com mais de cem nomes, que ainda corroboram as práticas públicas e privadas escusas do morto.

É feita uma acareação entre Mateus Cabral e Zeca Diabo já que há contradição em seus depoimentos; Zeca Diabo desmente que ele e João Jorge tenham ido roubar porcos naquela madrugada, que este apenas acompanhava o falecido. Depois da acareação Zeca Diabo some definitivamente para nunca mais ser encontrado. A 21 de janeiro de 1986 quase um ano após o crime sai a sentença: Mateus Cabral é inocentado do homicídio.

Bruno Vieira Amaral em seu estrondoso Hoje estarás comigo no paraíso vale-se da memória pessoal para realizar um acerto de contas com seu passado de vida e familiar, restituindo e dando voz ao primo brutalmente assassinado com apenas vinte e um anos de idade. Ao investigar esse homicídio, com mais dúvidas, perguntas e incertezas que respostas e conclusões plausíveis e definitivas, o autor monta e concebe um livro em mosaico, com histórias, fatos e personagens entrelaçados, situados no presente e no passado, revivendo e relembrando um estigma, uma mancha até então silenciada, que necessitava com urgência ganhar corpo, ser revisitada, decodificada, escrita e finalmente narrada.

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