Resenha de Eulogy for a Brown Angel, de Lucha Corpi (Juliana Meanda)

Nascida no México e residente dos Estados Unidos, Lucha Corpi é uma das pioneiras da literatura feminina chicana e precursora da ficção detetivesca feminina chicana. A escritora migrou para aquele país aos 19 anos de idade, em 1964, e sua chegada foi na cidade de Berkeley, Califórnia, local e época de grande agitação política e cultural, em plena efervescência dos movimentos pelos direitos civis. Dentre os grupos que reivindicavam justiça social estavam os chicanos – termo que pode designar tanto mexicanos residentes dos Estados Unidos, como a autora, quanto nascidos em território estadunidense de ascendência mexicana.

Corpi traz em sua escrita muito do que experienciou em sua própria vida, e sua ficção detetivesca mostra figuras icônicas e episódios marcantes para os chicanos, tais como o Movimento Chicano das décadas de 1960 e 1970. Eulogy for a Brown Angel (1992) é o primeiro título do que viria a ser uma série de ficção detetivesca, composta por mais quatro livros: Cactus Blood (1995), Black Widow’s Wardrobe (1999), Crimson Moon (2004) e Death at Solstice (2009), todos publicados pela editora Arte Público Press, cujo foco é a produção literária latina nos Estados Unidos. Todos os títulos estão disponíveis em versão digital, porém apenas no original, em inglês.

A primeira obra da série traz já em sua abertura o contexto da marcha da Moratória Chicana, que de fato ocorreu na cidade de Los Angeles em 1970, manifestação política contra a Guerra do Vietnã que ocorria de forma pacífica até a intervenção violenta da polícia. A protagonista, Gloria Damasco, é apresentada como participante do protesto, quando então se depara com o cadáver de um menino chicano, ficando muito abalada, sendo ela mesma mãe de uma filha pequena. É nesse momento de choque que ela tem a sua primeira sensação “fora do normal”, sentindo como se estivesse observando toda a cena de cima. A partir daí ela passa a desenvolver uma nova característica, que surge como uma espécie de consciência extrassensorial, que por não compreender muito bem, chama de dom sombrio – dark gift.

A personagem então se vê em conflito entre essas percepções sobre as quais sente não ter qualquer controle e seu lado racional. Seu ingresso no mundo da investigação criminal se dá portanto de forma acidental, demonstrando seu envolvimento emocional com o caso, pois o que a move é a busca por justiça para o crime cometido contra aquela criança. Gloria é inicialmente uma investigadora amadora, que vivencia uma ruptura entre as realidades objetiva e subjetiva, mas de alguma forma demonstra ouvir essa “voz” que não consegue compreender muito bem. Mesmo não tendo muita clareza sobre o significado de suas visões, através delas Gloria começa a obter algumas percepções a respeito do crime e de seu assassino.

A protagonista se vê entre as realidades objetiva e subjetiva, assim como entre as culturas do México e dos Estados Unidos, tendo de conciliá-las a todo o tempo, mas sem chegar a um reducionismo simplista em nenhuma instância. Diferentemente dos detetives mais tradicionais, que costumam ser protagonistas masculinos, racionais e frios, Gloria não tem medo de revelar suas emoções e dúvidas, além de demonstrar um profundo senso de responsabilidade e lealdade a seu povo. Como uma detetive clarividente, ela traz uma nova perspectiva estética e cultural feminista chicana ao gênero da ficção detetivesca.

Entretanto, Gloria sente-se dividida entre buscar justiça e preservar seu papel de esposa e mãe, promovendo, assim, uma reflexão sobre a temática de gênero dentro ainda da perspectiva étnica. Há um questionamento dos papéis de gênero, porém mostrando a personagem como vulnerável à ideologia dominante, uma vez que ela acaba por abdicar da investigação criminal para dedicar-se à família. Apesar de continuar reunindo dados a respeito do crime ao longo do tempo, ela retoma o caso somente dezoito anos depois, após a morte de seu marido e a saída de sua filha para a universidade. Ao término da obra, passados tantos anos e ocorridas diversas mudanças em sua vida, o momento é mais oportuno para que ela possa recuperar sua dívida moral e enfim solucionar o caso.

A série detetivesca de Corpi segue mostrando a gradual transformação de Gloria em uma detetive particular profissional, e continua rememorando símbolos e eventos históricos importantes para a comunidade chicana, valorizando assim sua história e memória. A autora resgata figuras míticas e históricas, recontando e ressignificando sua simbologia. Sua escrita empreende movimentos contra-hegemônicos ao apresentar identidades historicamente subalternizadas que se colocam como resistência cultural, promovendo uma revisão crítica da história e oferecendo novas perspectivas sobre o passado. Corpi faz de sua ficção um meio de conscientização, evidenciando o vínculo entre a literatura e a crítica política, além de unir conhecimento e entretenimento.

Etiquetas ,

1 comentário sobre “Resenha de Eulogy for a Brown Angel, de Lucha Corpi (Juliana Meanda)

  1. Excelente!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *