Resenha de Mulheres Empilhadas, de Patrícia Melo (Raquel Souza de Morais)

Mulheres Empilhadas, publicado em 2019, é certamente o romance de Patrícia Melo que aborda de forma mais contundente a temática da violência de gênero. Em entrevistas, a autora comenta que o romance nasceu da encomenda de uma editora para escrever um livro com protagonismo feminino e, devido à intimidade de seus escritos com a temática da violência, ela escolheu abordar, de maneira mais específica, a problemática da violência contra a mulher. 

Embora a autora já tenha tangenciado esse grave problema social em outras obras – como no romance Valsa Negra (2003), por exemplo – Mulheres Empilhadas se diferencia e se destaca por vários aspectos, mas especialmente pela narrativa em primeira pessoa que nos traz a ótica da mulher, ou seja, de quem sofre as agressões e se vê num mundo perigoso. Outro aspecto muito importante é o fato da narrativa ficcional ser mesclada a casos verídicos de agressões e feminicídios, o que traz uma grande aproximação com o real. 

Todas as partes do livro apresentam elementos simbólicos muito interessantes, dos quais o leitor pode sempre depreender alguma interpretação. A capa, por exemplo, cria um mosaico de mulheres a partir da mesclagem de duas imagens: “O nascimento de Vênus”, de Botticelli e “The Birth of Oshun”, de Harmonia Rosales. A ideia de mosaico de mulheres, reforçada pelo título do livro, é bastante apropriada para o tom que permeia todo o romance: toda mulher, não importa cor ou classe social, corre perigo. Todas somos vítimas em potencial. No entanto, uma interpretação mais otimista também é possível, já que as imagens que originam o mosaico retratam um momento de esplendor, o nascimento de deusas de diferentes culturas, de forma que a capa também pode simbolizar a potência do feminino quando identifica e luta contra as violências representadas no livro.

Também é interessante notar a forma como o romance se estrutura, a partir de três índices. Os capítulos numerados apresentam histórias verídicas de assassinatos de mulheres das mais variadas idades e classes sociais, mortas, em sua maioria, pelo companheiro. Nos capítulos classificados pelas letras do nosso alfabeto temos a narrativa ficcional, protagonizada pela advogada e, finalmente, os capítulos indexados pelo alfabeto grego trazem experiências oníricas vividas pela protagonista ao participar de rituais com uma bebida terapêutica e alucinógena.  

Os capítulos numerados são responsáveis por trazer essa interface com uma realidade cruel para as mulheres. Dentre os casos reais retratados, o capítulo 9: “Morta pelo marido em parceria com o Estado” chama a atenção por abordar a recorrente ineficiência das autoridades em proteger a mulher, mostrando que, muitas vezes, o Estado acaba se tornando cúmplice dos feminicídios. Nele, temos a transcrição de gravações telefônicas feitas por oito vizinhos que denunciavam a agressão e posterior assassinato de uma mulher. A polícia, apesar de ter sido acionada tantas vezes, demorou quatro horas para chegar ao local e encontrou a mulher morta há pelo menos vinte minutos.

A trama ficcional traz a história de uma advogada – única personagem não nomeada no livro – que, após ser agredida pelo namorado, resolve partir para o Acre com o objetivo de contribuir para um projeto de seu escritório que atuava em mutirões de julgamentos de feminicídios em todo o Brasil. A viagem não é apenas uma fuga do agressor, mas simboliza, principalmente, uma jornada de autoconhecimento, reflexão e cura. Isto porque é através do envolvimento em vários casos de outras mulheres que a protagonista encontra forças para superar o que lhe aconteceu e para dar a sua contribuição para a transformação da sociedade.

A dor e o trauma das violências sofridas pela protagonista são ressimbolizadas através da experiência com o chá terapêutico e alucinógeno e da sua conexão com a ayahuasca. Essas experiências são mostradas nos capítulos organizados pelo alfabeto grego. Durante as sessões de ingestão do chá, a protagonista tem sonhos e se conecta com antepassadas pertencentes a uma tribo formada somente por mulheres, a Liga das Mulheres das Pedras Verdes. Nesse contexto onírico, as mulheres estão livres de toda opressão e violência.

Mulheres Empilhadas tem recebido críticas positivas tanto pela qualidade da escrita quanto pela pertinência do tema em nossa sociedade. Apesar da literatura de Patrícia Melo nunca ter apresentado caráter “panfletário”, é notório como esse romance pode, para além do lado artístico, ser interpretado como denúncia e, até mesmo, como combate em relação ao tema do feminicídio e outras faces da violência contra a mulher.

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1 comentário sobre “Resenha de Mulheres Empilhadas, de Patrícia Melo (Raquel Souza de Morais)

  1. Excelente texto! Deu muita vontade de ler o livro. Obrigada!

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