Resenha sobre Júlia: nos campos conflagrados do Senhor, de B. Kucinski (Thaís Sant’Anna Marcondes)

A ditadura militar é tema caríssimo a Bernardo Kucinski. Dos sete livros de ficção publicados pelo autor, quatro apresentam como tema central os crimes cometidos durante os anos de chumbo. O período, para o autor, representa nosso mal de Alzheimer nacional. Por isso, Kucinski trava uma batalha contra a disseminação de uma memória difusa e ambígua sobre essa época. Longe de estar exaurido, esse é um tema que continua a se impor. Júlia: nos campos conflagrados do Senhor, publicado pela editora Alameda em 2020, traz para o leitor um porão da ditadura ainda não explorado pelo autor nas obras anteriores – o sequestro de crianças e as diversas camadas da sociedade envolvidas no ato.

A história da personagem Júlia tragicamente se assemelha com a história real de muitos brasileiros, argentinos, chilenos, uruguaios… A crueldade do aparato repressor das ditaduras militares na América Latina foi tamanha que inúmeros foram os casos de sequestros de bebês e crianças, filhos de militantes de esquerda.

 O livro traz duas epígrafes que se opõem entre si e dão o tom do enredo: uma aponta para a impossibilidade de ser socialista e bom católico ao mesmo tempo; outra indica que ser cristão traz como consequência ser revolucionário.

 A narrativa se passa em dois tempos que estão diferenciados no livro por fontes tipográficas distintas. Nos capítulos em que o tempo são os anos de regime opressor, acompanhamos dois posicionamentos opostos de membros da igreja católica: uns apoiavam o regime, encobriam mortes e colocavam crianças sequestradas para adoção; outros tentavam impedir as atrocidades cometidas pelos militares.

Nos capítulos em que o tempo da narrativa é o ano de 1992, Júlia descobre um estojo misterioso que guardava papéis do pai com informações sobre seu passado obscuro – tal qual a história do regime militar no país. A moça, que pensava ser filha dos pais com quem conviveu durante toda a vida, lê, em uma carta, que, na verdade, havia sido adotada. Junto das cartas, havia também uma lista com alguns nomes seguidos de números, um relatório endereçado à Anistia Internacional sobre crianças desaparecidas e depoimentos de pessoas que foram presas e torturadas. A descoberta do estojo representou a descoberta da história de sua própria vida e de um outro Brasil. A partir dessas informações, acompanhamos a saga de Júlia em busca de pistas que a fizessem encontrar sua própria história. A procura por uma narrativa verdadeira que dê conta do silêncio imposto pelos militares já foi mote de outro livro de Kucinski – K. Relato de uma busca –, que apresenta ao leitor a saga de um pai em busca da filha desaparecida em 1974.

Um personagem que será fundamental para o desenlace dos enredos nos dois tempos é o policial íntegro Magno. Personagem de outro livro do autor – Alice: não mais que de repente, publicado pela editora Rocco em 2014 –, em Júlia, é este escrivão aspirante a delegado quem esclarecerá ao pai de Júlia as prisões misteriosas que estavam ocorrendo durante a ditadura. Posteriormente, será ele também quem vai ajudar Júlia a se aproximar da história verdadeira de sua vida.

Dividido em pequenos capítulos que mais se assemelham a contos, como nos livros anteriores, o livro, ao apresentar uma personagem que busca a verdade sobre sua própria história, escancara uma parte da história do país guardada a sete chaves em uma das muitas gavetas trancadas da ditadura. B. Kucinski, ficcionalizando material histórico e criando situações possíveis durante e após o regime ditatorial, demonstra a habilidade de expor aos seus leitores o caos, a desumanização e a barbárie elevados ao grau máximo do absurdo.

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