Resenha da série Peaky Blinders, de Steven Knight (Raquel Silva)

“Por ordem dos Peaky Blinders…”

Em Peaky Blinders, série exibida pela BBC desde 2013, vemos a integração muito bem elaborada entre história e ficção, numa atmosfera noir,tendo como contexto as primeiras décadas do séc. XX.  A gangue, originalmente liderada por Thomas Gilbert, é conhecida historicamente pela violência com que seus membros agiam em suas atividades ilícitas, incluindo roubos e apostas de cavalos na cidade de Birmingham, Inglaterra.

Steven Knight, autor da série, relata que seu interesse pelo bando foi despertado desde sua infância ao ouvir as histórias contadas por seus pais. Ele ressalta que a origem do nome não é bem conhecida, mas sabe-se que foi a primeira gangue a criar uma identidade própria no local, customizando sua aparência a partir do uso de casacos compridos escuros assim como boinas que encobriam seus olhos e cujas costuras poderiam conter lâminas, servindo como armas para suas lutas territoriais. Curiosamente, após sua extinção nos anos 30, todas as novas gangues de jovens passaram a ser identificadas pelo mesmo nome, mantendo vivo o imaginário de sua existência nas futuras gerações.

Ao longo da narrativa, acompanhamos a saga da família Shelby desde sua ascensão no crime organizado à consolidação e busca por legitimação de seus negócios no período entre guerras. O roteiro é muito bem elaborado ao mesclar ficção com aspectos históricos e sociais, o que pode ser observado em relação à ambientação do período industrial, no desenvolvimento do espaço urbano ao longo das temporadas, no impecável figurino dos atores e na presença de alguns personagens históricos muito bem contextualizados à trama.

A primeira temporada estabelece o início da linha temporal a partir de 1919, logo após o término da primeira grande guerra. Podemos acompanhar Thomas Shelby , um ex-soldado condecorado, assumir a liderança de sua família, controlar o poder e prestígio local e ascender no crime organizado, expressando sempre ambições maiores. Thomas é um estrategista engenhoso e controlador que faz da busca pelo poder sua maior ambição. Ele tem o apoio mais próximo de seus irmãos Arthur e John, seguidos por um fiel grupo de companheiros – vale ressaltar que todos carregam profundos traumas e sequelas da guerra, fato que influenciará boa parte de suas decisões e atitudes ao longo das temporadas. O protagonista, brilhantemente interpretado por Cillian Murphy, é um personagem contraditório, complexo e obscuro, sua postura de frieza e seu olhar aparentemente calmo podem esconder fortes emoções que passarão a expressar atos reativos e uma decadência psíquica progressiva à medida que avança em seus objetivos e sofre as consequências danosas de seus atos.

Até a 5ª temporada, a mais recente, acompanhamos diversas questões conflitantes relacionadas a disputas internas, fragmentação familiar e dramas pessoais dos principais personagens. Em paralelo temos conflitos externos que mesmo sem muita profundidade revelam um background histórico-sociológico muito complexo: os conflitos de poder entre vários grupos étnicos, a diferença entre classes, algumas tramas governamentais, a revolução bolchevique, lutas sindicais, a crise da Bolsa de Valores em 1929 e suas consequências, o contrabando de bebidas durante a Lei Seca estadunidense, o ópio e a emergência do narcotráfico, o poder partidário e a emergência do fascismo na Inglaterra.

Podemos relacionar uma estreita aproximação entre o extenuante trabalho realizado por Thomas na cavação dos obscuros túneis durante a “guerra das trincheiras” e sua atividade posterior no submundo do crime e da política. Por mais riqueza, ascensão e uma certa legitimidade que a família Shelby possa conquistar, lidam com o estigma e preconceito advindos de sua origem cigana e marginal, fazendo com que sejam sempre vistos pela aristocracia e governo como subalternos, um poder paralelo necessário ao controle e manutenção da ordem. Afinal, nos ambientes em que a lei normativa deixa de existir faz-se presente a temida “red right hand” de Thomas Shelby e sua família.

Recentemente, em janeiro do presente ano, Steven Knight divulgou o término da série na 6ª temporada (2021/2022), porém também anunciou que haverá a sua extensão para as “telonas” com a produção de um filme. Peaky Blinders tem sido reconhecida por vários críticos como uma das melhores séries do gênero nos últimos anos, possui excelentes atores e um roteiro muito bem elaborado, repleto de reviravoltas – vale a pena assistir!

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