Resenha de O mistério, de Afrânio Peixoto, Coelho Neto, Viriato Corrêa e Medeiros e Albuquerque (Alexandre Amaral Ferreira)

O romance O Mistério foi publicado primeiramente como folhetim, sendo lançado um capítulo por dia do período de 20 de Março até o dia 20 de Maio de 1920, e de autoria de Afrânio Peixoto, Coelho Neto, Viriato Corrêa e Medeiros e Albuquerque,  que na época era diretor do jornal A Folha. Em uma nota prévia, diz-se que Medeiros e Albuquerque, denominado “&”, era o dono da idéia, e que teria escrito o primeiro capítulo apenas para “tirar a fieira”. Mas ao final do folhetim, Medeiros e Albuquerque assina nove capítulos, cobrindo imprevistos durante a produção. Coelho Neto escreveu sete, Viriato Corrêa concluiu catorze e Afrânio Peixoto, dezessete.

A publicação de O Mistério foi, evidentemente, um sucesso, pois no mesmo ano em que saiu no jornal, chegou à segunda edição e pelo menos ao terceiro milheiro de vendas no período compreendido entre Maio e Dezembro de 1920. Ao fim de 1928, já na terceira edição, totalizava dez mil cópias produzidas. Mesmo após tamanho sucesso, Medeiros e Albuquerque foi o único que continuou a se aventurar pelas narrativas detetivesca e de crimes. Os outros três autores, até onde se sabe, não voltaram a contribuir para os gêneros até o fim de suas vidas. Apesar de todos os autores serem membros da Academia Brasileira de Letras, o romance, nunca chegou a figurar como obra relevante, na visão dos acadêmicos, merecedora de estudos, tendo sido estigmatizada como subliteratura.

O folhetim, e por consequência o romance, conta a história de Pedro Albergaria, rapaz que vive na pobreza e alimenta uma sede de vingança pelo banqueiro Sanchez Lobo. Tal vingança se dá por motivos passados, aos quais Albergaria se atém para concluir sua missão. Leitor ávido de romances policiais, Albergaria os utiliza como manual para a criação de um plano perfeito onde se vingaria e sem ser descoberto. Mas como em todo folhetim, reviravoltas diversas colocam Pedro de encontro com uma filha rejeitada por Sanchez Lobo, um aproveitador americano e, sobretudo, com o Major Mello Bandeira, detetive da obra, o que o conduzirá a diversas situações em que quase é descoberto. Amante da ciência como forma de elucidar mistérios, Major Mello Bandeira possui uma lanterna furta-fogo como equipamento e replica tanto os métodos do detetive de Conan Doyle quanto o modo peculiar de agir, recebendo a alcunha de “O Sherlock da Cidade”.

Uma característica muito peculiar do que seria o primeiro romance policial feito no Brasil, é que, apesar de ter início com um crime, e em seguida iniciar-se uma investigação que daria todo o aspecto policial do texto, o romance destoa do modelo canônico, sem, no entanto, descaracterizá-lo. Com o decorrer da história, ocorre uma leve transição à um modelo mais humorístico do que policial, ao serem ressaltados os infortúnios da polícia do Rio de Janeiro. Mesmo tendo o respeito de alguns colegas por suas técnicas e resultados, Mello Bandeira é tratado por outros como chacota, por depositar demasiada crença na ciência. Essa transição pode ser corroborada por fatores diversos, mas, entre eles, destaca-se a origem da investigação, que, ao ser feita pela instituição policial, é marcada pela típica ineficácia encontrada em romances clássicos do gênero, que privilegiam os detetives amadores à polícia. O outro fator seria o pouco compromisso dos escritores com o próprio gênero, que ao nosso ver, era seguido mais à risca apenas pelo dono da ideia geral.

Dentre as diversas especulações em torno do romance, o que fica claro é que independente de como se deu sua formulação, contando com a contribuição de autores que talvez não levassem tão a sério o dito romance policial, O Mistério é, ainda assim, o primeiro projeto literário detetivesco a ser completado no Brasil. Talvez, por não termos estreado na ficção detetivesca através de um modelo sólido, conforme às “regras” e capaz de definir nosso engajamento ao gênero, reverbera-se a ideia de uma literatura de crime brasileira sem aspectos distintivos. No entanto, como estudos recentes vem demonstrando, é, talvez, justamente nesse olhar menos preocupado com as regras que esses autores lançaram sobre O mistério que reside a possibilidade de delinear um modelo livre das amarras estrangeiras para pensar a ficção detetivesca no Brasil.

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