Resenha de Nada vai acontecer com você, de Simone Campos (Pedro Sasse)

Podemos dizer (ainda que haja nuances) que a ficção detetivesca passou por algumas fases bem delineadas ao longo de sua trajetória. Primeiro, a clássica fase dos detetives amadores que consagrou Conan Doyle e Christie. Depois, a fase noir dos detetives durões de Chandler e Hammett, seguida do sucesso dos police procedural que se disseminaram por séries como CSI, Law and Order, Bones etc. Recentemente, dentro da heterogeneidade da produção contemporânea, vemos algumas tendências ganhando relevo, dentre as se encontra a dos detetives marginais.

Por detetives marginais me refiro àqueles que fujam do padrão que marca o gênero desde sua origem: masculino, hétero, cis, branco e de classe média. Ainda que vejamos quebras nesse padrão ao longo de toda a trajetória do gênero, recentemente, com a intensificação da circulação dos discursos sobre representatividade na crítica e na mídia, os detetives marginais deixam de ser exceção para ganharem o primeiro plano no gênero. Temos, assim, a ficção detetivesca feminista, a negra, a queer, a pós-colonial – e se quiser saber um pouco mais sobre esse universo, dê uma olhada nesse livro disponível em nosso blog. E o recém-publicado Nada vai acontecer com você, de Simone Campos, parece entrar de cabeça nessa vertente, escrevendo um suspense que envolve tanto questões de gênero, como raciais, sexuais e pós-coloniais.

O livro é divido em duas partes principais. Na primeira, a trama gira em torno do desaparecimento de Viviana e a investigação empreendida por Lucinda, sua irmã, na tentativa de descobrir seu paradeiro. Na segunda, o foco se desloca para a própria irmã desaparecida e sua luta pela sobrevivência.

Não é, contudo, apenas o foco que muda nas duas partes desse romance. Voz narrativa, ritmo e mesmo o estilo parecem variar de entre os dois blocos da história. No primeiro, narrado em terceira pessoa, vemos o detalhado mergulho de Lucinda não apenas na investigação do caso, mas na própria vida privada de sua irmã, de onde tenta tirar pistas que levem ao seu paradeiro, descobrindo, no processo, uma faceta de Viviana que desconhecia por completo. Temos, assim, sequências típicas das narrativas investigativas, tais como tentativas de descobrir senhas, leitura de diários, levantamento de suspeitos e interrogatórios.

No segundo, bloco, contudo, passamos a uma narração em primeira pessoa, arremessados diretamente nos pensamentos de Viviana. Em uma situação de tensão ininterrupta em espaço confinado, a sensação é de uma única e longa cena que, no entanto, devido à construção do suspense, prende o leitor ao longo de todo o trecho. Aqui, as sequências investigativas abrem espaço para uma bem estruturada dinâmica entre vítima e criminoso.

Ainda que tenha um papel importante na arquitetura dos efeitos e sentidos da obra, a primeira parte do livro acaba sendo um pouco ofuscada pela segunda. Primeiro, porque, possivelmente, é arquitetado para ter uma função mais acessória: ainda que Lucinda tenha algum espaço narrativo para sua própria vida e seus próprios problemas, a dinâmica da trama faz com que ambas as partes giram em torno da irmã. Assim, a primeira parte parece ser uma estratégia para construir com calma alguns traços da vida e da personalidade da Viviana que serão confirmados ou confrontados na segunda parte. Por outro, enquanto o domínio das fórmulas do suspense é um ponto alto na segunda parte, o processo investigativo da primeira não se destaca muito: no que diz respeito especificamente ao crime – e não à vida de Viviana –, a solução é bem linear, esperada e sem muito espaço para o desenvolvimento do mistério. Por último, a narração em primeira pessoa da segunda parte, carismática, envolvente, por contraste, empalidece a da primeira.

Se Campos parece bem imersa do zeitgeist contemporâneo através das questões identitárias exploradas na narrativa, também o faz ao sintonizar-se a essa onda de nostalgia dos anos 90 e começo dos 2000, com um vasto repertório de referências, de X-men a O Clone. Essas referências da cultura pop dividem espaço com outras eruditas, como Dom Quixote ou Doistoiévsky, mostrando, ainda, a capacidade conciliar de forma harmoniosa erudito e popular, nem superficial nem críptica.

Um dos pontos de maior destaque na obra, no entanto, se encontra na forma sutil da abordagem feita pela autora dos temas escolhidos. Campos foge, em quase todos os aspectos, dos binarismos que muitas vezes marcam o discurso identitário. Oscila, assim, entre o branco e o negro, o masculino e o feminino, o hétero e o homo, o rico e o pobre, o erudito e popular, jogando com essa fluidez que marca, por um lado, as identidades pós-modernas e, por outro, esse entrelugar próprio da identidade latino-americana e, sobretudo, brasileira.

Nada vai acontecer com você não apenas é um romance de agradável leitura, mas também uma obra que dialoga bem com questões próprias do nosso tempo, com a sensibilidade e equilíbrio que, muitas vezes, não encontramos em alguns autores considerados aqui os expoentes do gênero criminal.

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2 comentários sobre “Resenha de Nada vai acontecer com você, de Simone Campos (Pedro Sasse)

  1. Gostei! Quero ler!

    1. Acho que pode ser uma boa adição para a sua pesquisa, Raquel!

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